Poesias e contos produzidos por participantes do Quilombo Ciência.
Omagem de Guney Akin na Unsplash
Eu vou cantar, só que eu vou cantar hoje. Vou cantar hoje a canção mais antiga que eu conheço, que fala da saudade de um lampião de gás que se apagou. Essa eu vou cantar hoje. Eu vou cantar hoje desde manhãzinha a ave-maria que eu prometi no seu casamento, porque ao meio-dia a nossa voz ficará mais afinada, às três da tarde a noiva não veio e ao pôr-do-sol você já se foi. Eu vou cantar a ovelha negra mas também cantarei atrasado, ela também não é mais a garotinha que espera o ônibus da escola, o ônibus dela passou, ela embarcou porque era malandra, voou dolorida olhando por uma janela, e também sumiu. Eu vou cantar hoje mesmo a cajuína. Escuta, Maria Maria, eu vou cantar exagerado hoje, porque entre nós ainda que a sua música também seja…
Nature
Onde nós nos movíamos tudo era muito claro e silencioso, e só o que nós sentíamos, ainda que não ouvíssemos e nem víssemos nada, era que tudo tinha cheiro e gosto, e que tudo também se movia. Sentíamos uma onda misturada, principalmente de curiosidade e medo. Tudo era muito branco, não como paredes brancas, mas como uma neblina que tocava o nosso olhar como se fosse parte dele e parte de nós e se estendia para sempre e para todos os lados com o brilho intenso de uma mistura de todas as cores, uma completa cegueira branca. Distante, começamos a entender baixinho um som conhecido que crescia e diminuía, com uma cadência lenta e repetida, um chiado profundo e irregular. O som vinha de todos os lados, mas como nós também nos movíamos ao mesmo tempo em todas as direções…
A História começou em uma quinta-feira. E começou assim, com H mesmo, sem modéstia. Mas ninguém percebeu na hora. Agora, dois dias depois então era que quase ninguém mesmo estava prestando atenção, agora que era notícia velha, se a História tinha começado mesmo era possível que isso nem fosse notado, ao menos não ainda, não tão cedo. Essas coisas desenrolam-se de tal maneira que muito raramente são percebidas pelas pessoas enquanto vivem. O tempo tinha passado e a vitrola dava graças à vida, falando de coisas tristes e coisas bonitas como se nada tivesse acontecido dois dias antes. No intervalo entre um lado e o outro do disco, a Jovem subiu no caixote da praça, limpou a garganta e pediu licença para cantar sobre o começo da História e contar sobre um anoitecer na vida do Velho. O velho foi…
NASA/JPL-Caltech
Em um instante do movimento, as milhares de civilizações sábias de Laniakea cantaram e dançaram por aquelas que haviam se calado muito cedo, sem nunca ter aprendido a ouvir às vozes antigas e nem à sua própria voz, e sem saber que eram parte de uma mesma longa sinfonia. Sabiam que uma voz não cantava para sempre, que a canção do universo era sempre ao mesmo tempo alegria e tristeza, que seguia harmônica mesmo quando dissonante e em seu ritmo cada vez mais vibrante mesmo que sua cadência variasse, mas aquele instante se arrastava, em toda a canção se sobrepunham notas mais graves e profundas e agudos mais dissonantes, e todas as vozes que se alternavam em coros ouviam e entendiam as palavras e choravam, porque uma parte delas tinha virado ecos na poeira antes que suas vozes chegassem a…