Arquidiocese cede às pressões da extrema direita e determina “recolhimento” do Padre Júlio Lancellotti.

No momento, você está visualizando Arquidiocese cede às pressões da extrema direita e determina “recolhimento” do Padre Júlio Lancellotti.

Arquidiocese cede às pressões da extrema direita e determina “recolhimento” do Padre Júlio Lancellotti.

O Padre Júlio Lancelotti está na Paróquia católica de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca em São Paulo, há mais de 40 anos. É conhecido mais do que tudo por seu trabalho de acolhimento e cuidado com pessoas que estão vivendo na rua, respeitado por exercitar na prática na sua vida pública e sacerdócio aquilo que prega em seus sermões, ele faz uma leitura dos Evangelhos comprometida com as pessoas pobres, e fala de um Deus que não tolera a injustiça e se compadece pelas pessoas que estão sofrendo, que não se alia a pessoas que toleram e causam o sofrimento alheio em benefício próprio.

Se o Padre Júlio só falasse sobre alimentar as pessoas famintas, vestir as pessoas que sentem frio, proteger as pessoas desabrigadas, ou seja, se só pregasse na missa a doutrina da caridade da igreja e coletasse doações para que as pessoas da sua paróquia pudessem pagar propina às suas consciências, talvez não incomodasse tanta gente poderosa. Mas ao longo dos últimos anos, principalmente com a reorganização da extrema direita no Brasil, o Padre Júlio acumulou desafetos, sofreu ameaças e ataques de setores da religião e da política que consideram a sua mensagem e sua atuação perigosas. Ao chamar e acolher uma multidão de pessoas desamparadas em um bairro da classe média de São Paulo, o Padre escancarou uma contradição: Uma sociedade tão cristã e que se considera tão rica, e uma massa de gente esfarrapada, faminta e desabrigada, exposta na rua e nas redes sociais. Essa mensagem ganhou espaço e visibilidade nas redes.

As missas e caminhadas do Padre Júlio pelo bairro, transmitidas através de suas redes sociais que incluem mais de 2,3 milhões de seguidores só no Instagram parecem mostrar um cenário de tanta desigualdade e injustiça que realmente, que seria mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. Ele tem se mostrado coerente com isso também, questiona as causas dessa distribuição tão desigual das riquezas e critica não somente a falta de políticas públicas de moradia, saúde e educação, mas as políticas e práticas excludentes e anti-pobre dos governos, das empresas e da sociedade, tornou-se um aliado das lutas por dignidade e direitos humanos e também das lutas por moradia. O trabalho do Padre Júlio tem incomodado várias figuras que representam os interesses das pessoas mais ricas da cidade e do país, como por exemplo um deputado federal de extrema direita (do PL) que divulgou um vídeo nas redes sociais dizendo que teria levado à Embaixada do Vaticano um abaixo-assinado com mais de mil assinaturas demandando o seu afastamento das atividades.

Agora, às vésperas de uma das datas mais importante do calendário cristão e católico, o Natal, que segundo a tradição celebra justamente a ideia de que o próprio Deus cristão teria nascido como um bebê pobre e filho de um operário imigrante e desabrigado – como boa parte das pessoas acolhidas pelo Padre – para viver na carne a vulnerabilidade da condição humana, e às vésperas do aniversário de 77 anos do padre Júlio, o arcebispo de São Paulo pediu ao clérigo para “dar um tempo”, para seu “recolhimento e proteção”. Impôs-lhe o silêncio nas redes sociais e a interrupção da transmissão na internet das missas da igreja da Mooca, abriu inclusive a possibilidade do afastamento dele da paróquia de São Miguel Arcanjo e a sua aposentadoria compulsória, com a justificativa da idade, embora padres com 80 ou 90 anos sigam desempenhando normalmente suas funções sacerdotais. O Padre Júlio acatou resignadamente essas imposições na forma de “pedido”, por fidelidade ao sacramento da Ordem e à hierarquia da Igreja Católica, dizendo que cabe a ele “apenas obedecer”.

Mas as pessoas da sua paróquia, assim como dos movimentos sociais e populares entenderam o recado que é dado quando uma voz como a do Padre Júlio é sufocada para atender à pressão dos setores mais violentos e destrutivos da sociedade. Atar as mãos do Padre Júlio na sua atuação com as pessoas em situação de rua ou eventualmente afastá-lo da sua comunidade seria uma traição à mensagem de “amor pelos pobres” propagada pela igreja principalmente nesses dias de festas, uma violência contra o pároco e um ataque grave contra a organização das pessoas pobres nas lutas contra a desigualdade e por direitos. Declaramos a nossa solidariedade ao Padre Júlio Lancellotti nesse momento, e nos colocamos ao lado da sua comunidade de fé, que unida pode muito mais que as pessoas que se consideram melhores do que o povo da rua apenas porque têm casa, pode mais que qualquer deputadozinho, mais que o Cardeal e mais até o Vaticano, porque sem ela não tem nem igreja, e a comunidade já deu a letra: “Padre Júlio Fica.”

O que você achou desse texto?
Compartilhe as suas impressões

Por que você não gostou dessa publicação? Conte-nos em um comentário.

100% LikesVS
0% Dislikes

Deixe um comentário

Quilombo Ciência

O Quilombo Ciência é uma rede de pessoas e territórios voltada para a aprendizagem de ciência, tecnologia e filosofia através de projetos comunitários em pequenos grupos.